O prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), apresentou à Câmara Municipal um projeto de lei para aumentar em 32% o salário dos auditores de controle interno. O objetivo da gestão é que a medida fortaleça a fiscalização da máquina pública, afim de aumentar a capacidade de prevenção a irregularidades e evitar a perda de profissionais qualificados para outros órgãos.
O projeto encaminhado à Câmara Municipal prevê reajustes diferenciados ao longo da carreira. Segundo cálculos divulgados na discussão do projeto, a atualização do subsídio é de aproximadamente 25%, podendo alcançar 32% para servidores lotados na Controladoria Geral do Município (CGM) quando considerada a Gratificação Especial pela Prestação de Serviços de Controladoria (GEP), benefício que já existe atualmente.
Assim, os auditores passarão a ter piso de R$ 21,5 mil, além de uma gratificação que subiria de R$ 700 a R$ 2 mil, concedida mensalmente a todos os servidores lotados na Controladoria Geral do Município (CGM).
Controle interno como ferramenta anticorrupção
Na justificativa enviada aos vereadores, Ricardo Nunes argumenta que o fortalecimento da carreira está diretamente ligado à capacidade do município de fiscalizar contratos, monitorar riscos e prevenir irregularidades.
“As medidas propostas valorizam e fortalecem os quadros técnicos responsáveis pelo controle interno para mitigar a evasão profissional”, afirma o prefeito no texto do projeto.
Ainda segundo a justificativa, o objetivo é ampliar a capacidade institucional da prefeitura diante dos desafios de gestão de uma cidade com orçamento superior a R$ 130 bilhões por ano e milhões de usuários dos serviços públicos. “A iniciativa busca contribuir para o fortalecimento de uma Administração Pública mais íntegra e preparada para responder, com maior capacidade institucional, aos desafios de gestão presentes e futuros da cidade de São Paulo”, diz o documento.
A lógica segue uma tendência observada em órgãos de controle de todo o país, onde carreiras ligadas à auditoria, fiscalização e combate à corrupção costumam receber remunerações superiores à média do funcionalismo devido ao elevado grau de especialização exigido.
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Muito além das auditorias
A prefeitura também contesta a percepção de que os auditores atuam exclusivamente na elaboração de relatórios de auditoria. Segundo a administração municipal, a carreira desempenha funções estratégicas relacionadas à integridade pública, gestão de riscos, correição, proteção de dados pessoais, ouvidoria, defesa dos usuários dos serviços públicos e monitoramento de políticas públicas.

Na prática, trata-se do grupo técnico responsável por identificar fragilidades nos processos administrativos, propor mecanismos de prevenção a fraudes e acompanhar o cumprimento de recomendações feitas à administração.
Para especialistas em governança pública consultados pela reportagem, essas atividades ganharam relevância crescente nos últimos anos, especialmente após a aprovação da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), dos programas de integridade e dos modelos modernos de gestão de riscos adotados pelo setor público.
Prefeitura cita risco de evasão de profissionais
Um dos principais argumentos da gestão municipal é a necessidade de tornar a carreira mais competitiva. Segundo a prefeitura, a remuneração atual tem dificultado a retenção de profissionais altamente especializados, especialmente em áreas como auditoria, compliance, investigação administrativa, análise de dados e gestão de riscos.
A preocupação não é exclusiva de São Paulo. Órgãos de controle em todo o país disputam profissionais qualificados com tribunais de contas, controladorias estaduais, controladorias federais, ministérios públicos e até o setor privado.
A administração municipal sustenta que a atualização salarial busca justamente evitar a saída de servidores experientes e garantir a continuidade das atividades de controle interno.
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Reconhecimento internacional da Controladoria
Outro ponto destacado pela prefeitura é a evolução institucional da Controladoria Geral do Município. A CGM alcançou o Nível 2 do Modelo de Capacidade de Auditoria Interna (IA-CM), metodologia internacional desenvolvida pelo Institute of Internal Auditors (IIA) e implementada no setor público brasileiro com apoio do Banco Mundial.
Para a prefeitura, o reconhecimento demonstra que a Controladoria vem passando por um processo de profissionalização e modernização, exigindo quadros técnicos cada vez mais especializados. A gestão também rebate críticas relacionadas ao número de auditorias divulgadas nos últimos anos.
A comparação direta com períodos anteriores desconsidera uma mudança metodológica implementada pela Auditoria Geral do Município. O modelo atual prioriza auditorias baseadas em risco, acompanhamento de recomendações e seleção de áreas consideradas mais críticas para a administração. Na avaliação da CGM, a qualidade e o impacto das ações passaram a ter mais peso do que a quantidade de relatórios produzidos.
O que está em jogo
Mais do que uma discussão salarial, o projeto coloca em debate qual deve ser o tamanho do investimento público em estruturas de controle e fiscalização.

Para a gestão Ricardo Nunes, a valorização dos auditores representa um investimento institucional destinado a fortalecer mecanismos de transparência, governança e prevenção à corrupção. Já os críticos questionam o momento e a amplitude dos reajustes.
A decisão final caberá à Câmara Municipal, que deverá avaliar não apenas o impacto financeiro da proposta, mas também os possíveis efeitos sobre a capacidade de fiscalização da maior prefeitura do país.