CD volta ao radar dos fãs, mas falta de produção limita nova onda da mídia física no Brasil

Vendas do formato cresceram nos Estados Unidos e atraem uma geração que redescobre a música fora do streaming; no Brasil, poucos fabricantes, catálogo reduzido e falta de aparelhos dificultam uma retomada em escala
Redação NC News
ouça este conteúdo
00:00 / 00:00
1x

Durante anos, o CD pareceu destinado a desaparecer. Substituído pelos arquivos digitais, depois pelo streaming e, mais recentemente, colocado à sombra da retomada do vinil, o compacto deixou de ser prioridade para gravadoras, lojas e fabricantes de equipamentos.

Agora, porém, o formato começa a dar sinais de uma nova vida.

Uma pesquisa da Luminate apontou crescimento de 16% nas vendas de CDs nos Estados Unidos no primeiro semestre de 2026. O movimento chama atenção porque ocorre justamente em um momento em que o vinil vinha concentrando praticamente toda a narrativa sobre o retorno da mídia física.

A mudança também envolve o perfil do consumidor. Além dos millennials, que acompanharam o nascimento, o auge e a decadência do CD, jovens da geração Z passaram a demonstrar interesse pelo formato. Para parte desse público, o disco deixou de ser apenas uma maneira de ouvir música e passou a representar um objeto físico, colecionável e permanente.

No Brasil, entretanto, a retomada encontra um obstáculo básico: há pouca estrutura para produzir, distribuir e até reproduzir CDs.

VEJA TAMBÉM

Durigan diz que instabilidade no STF atrapalha economia e cobra mais previsibilidade

O CD deixou de ser apenas um aparelho para ouvir música

A transformação do mercado físico de música ajuda a explicar por que o CD voltou a chamar atenção.

O consumidor atual não necessariamente compra um disco porque precisa dele para ouvir uma determinada música. O streaming resolveu essa necessidade de maneira muito mais prática.

O que o CD oferece é outra coisa: posse, encarte, arte, coleção e a possibilidade de manter aquele álbum independentemente das mudanças nos catálogos digitais.

Essa discussão ganhou força justamente com as limitações percebidas nos serviços de streaming. Álbuns podem sair dos catálogos por questões de licenciamento, versões podem ser substituídas e o consumidor não tem controle sobre a permanência daquele conteúdo. Para colecionadores, portanto, ter o disco físico significa possuir uma versão concreta da obra.

O preço também pesa. Os CDs costumam custar menos que os discos de vinil, tornando o formato uma alternativa para quem quer começar ou ampliar uma coleção sem necessariamente pagar os valores cobrados por determinadas edições em LP.

No mercado brasileiro, essa diferença pode ser ainda mais relevante diante do preço de importação de determinados títulos.

CDs são considerados formas de preservação e maior qualidade de música | Foto: Reprodução

K-pop ajudou a transformar CD em item de coleção

Um dos motores mais curiosos dessa retomada está no K-pop.

Segundo a Luminate, o gênero respondeu por quase 10% do crescimento das vendas de CDs nos Estados Unidos no primeiro semestre de 2026. O motivo está menos na necessidade de utilizar o disco para reprodução e mais na maneira como artistas e gravadoras transformaram o álbum em produto colecionável.

Álbuns de grupos sul-coreanos frequentemente são vendidos com photobooks, cartões colecionáveis, pôsteres, fotografias, embalagens especiais e diferentes versões de um mesmo lançamento.

Em alguns casos, o CD chega a ser apenas um dos componentes do produto.

Esse modelo conversa diretamente com uma geração acostumada a produtos personalizados e colecionáveis. O fã não compra necessariamente várias versões porque precisa ouvir músicas diferentes, mas porque cada edição pode trazer elementos exclusivos.

O comportamento também aparece fora do K-pop.

No mercado tradicional, nomes do pop internacional como Taylor Swift, Madonna e Lana Del Rey continuam atraindo compradores. O rock, especialmente o metal, também mantém espaço importante entre colecionadores por causa de edições especiais, boxes e capas diferenciadas.

A retomada, portanto, não significa simplesmente que as pessoas estão voltando a usar aparelhos de CD como faziam nos anos 1990 ou 2000. O que está mudando é a relação com o objeto.

KPOP representa uma explosão dos consumos de CD | Foto: Reprodução

Brasil tem consumidor, mas falta quem fabrique

É justamente nesse ponto que surge o principal problema brasileiro.

Enquanto o mercado de vinil ganhou novas fábricas e retomou parte da estrutura de produção, o CD não recebeu movimento semelhante em escala comparável.

Empresas como Polysom, Vinil Brasil e Rocinante ajudaram a ampliar novamente a oferta de discos de vinil no país. Para CDs, entretanto, a estrutura permanece muito mais limitada.

O resultado é um mercado em que determinado álbum pode existir fisicamente no exterior, mas não ter edição brasileira.

Para o consumidor, isso significa recorrer à importação — processo mais caro, demorado e sujeito à disponibilidade internacional.

O problema vai além das gravadoras. A própria indústria de eletrônicos praticamente abandonou os aparelhos dedicados à reprodução de CDs. Quem deseja ouvir um disco novo pode precisar recorrer a equipamentos antigos, aparelhos de DVD ou buscar um toca-CD usado.

A situação cria um paradoxo: existe público interessado, mas a infraestrutura necessária para atender esse público é pequena.

Lojas brasileiras já percebem a mudança

Em Fortaleza, lojistas especializados relatam sinais diferentes conforme o estabelecimento e o perfil do público.

Na Freelancer Discos, que tradicionalmente trabalhava com LPs, os CDs passaram a representar cerca de 40% das vendas. O estoque reúne aproximadamente 13 mil LPs e 5 mil CDs, com preços dos compactos variando, em média, entre R$ 15 e R$ 150.

O proprietário Alex Aguiar relata que o movimento recente está relacionado, entre outros fatores, ao questionamento dos consumidores sobre o funcionamento dos serviços de streaming. Para ele, a possibilidade de possuir fisicamente um álbum diferencia o CD do conteúdo disponível exclusivamente em plataformas digitais.

Na Disco Mania, loja que funciona desde 1988 e mantém cerca de 30 mil CDs, o público interessado também estaria ficando mais jovem.

Os compradores estão principalmente na faixa dos 20 aos 30 anos, segundo o vendedor João Paulo Freire. Mesmo assim, o crescimento das vendas ainda é limitado, inferior a 10%, justamente pela dificuldade de ampliar o catálogo disponível.

A Planet CDs, por sua vez, mantém cerca de 20 mil CDs e registra uma combinação entre antigos colecionadores que voltaram às lojas e jovens que passaram a descobrir o formato.

O comportamento descrito pelos lojistas ajuda a explicar a nova fase do CD: não se trata necessariamente de uma substituição do streaming, mas da criação de uma relação paralela com a música.

Influenciados pela era grunge, referências dos anos 80 e explosão do K-POP, jovens voltam a utilizar CDs | Foto: Reprodução

O Brasil já vive uma retomada da música física, mas o vinil domina

O cenário nacional mostra que a música física não desapareceu completamente.

Dados da Pró-Música Brasil indicam que o mercado fonográfico brasileiro faturou R$ 3,958 bilhões em 2025, crescimento de 14,1% em relação ao ano anterior. O Brasil subiu para a oitava posição entre os maiores mercados fonográficos do mundo.

O problema é que a maior parte desse dinheiro continua concentrada no digital.

Em 2025, as receitas digitais chegaram a aproximadamente R$ 3,4 bilhões, enquanto as vendas físicas representaram menos de 1% do faturamento total. Ainda assim, o segmento físico cresceu 25,6%, impulsionado principalmente pelo vinil.

O contraste fica ainda mais evidente quando se observa 2024. Naquele ano, as vendas físicas de música cresceram 31,5% no Brasil, alcançando R$ 21 milhões. O vinil respondeu por 76,7% desse faturamento, enquanto o CD ficou com cerca de 23%.

Ou seja: o mercado físico brasileiro está crescendo, mas o CD ainda está atrás do vinil nessa retomada.

Isso torna a movimentação observada nos Estados Unidos especialmente interessante. Se o crescimento internacional se consolidar e o comportamento dos consumidores brasileiros acompanhar a tendência, o compacto poderá encontrar um novo espaço — não como principal tecnologia de reprodução musical, mas como produto de coleção.

O futuro pode depender de uma nova indústria

A volta do CD não depende apenas de consumidores interessados.

Para transformar uma tendência de comportamento em mercado sustentável, seria necessário aumentar a oferta de prensagem nacional, estimular gravadoras e selos independentes e facilitar a chegada dos lançamentos às lojas brasileiras.

O exemplo do vinil mostra que isso pode acontecer.

O formato também enfrentou um período em que fábricas fecharam, equipamentos ficaram caros e os discos se tornaram produtos de nicho. A combinação entre colecionadores, novos consumidores, artistas interessados na mídia física e investimentos na produção ajudou a criar um novo mercado.

O CD parte de uma situação diferente. Ele nunca desapareceu completamente, mas perdeu espaço justamente quando a indústria passou a enxergar o streaming como principal caminho para o consumo musical.

Agora, existe uma geração que não necessariamente tem nostalgia do CD — porque sequer viveu seu auge —, mas que pode enxergá-lo como novidade.

Essa diferença é importante.

Para quem cresceu com Spotify, YouTube e outros serviços digitais, comprar um álbum físico pode representar uma experiência diferente da lógica de acesso permanente e imediato. É uma maneira de transformar uma música digital em objeto.

LEIA TAMBÉM

Brasil entra no top 5 das economias que mais cresceram no segundo trimestre

Entenda O Contexto

O CD foi criado em 1982 e chegou ao Brasil em 1986. Durante décadas, tornou-se uma das principais formas de consumo de música gravada, substituindo gradualmente as fitas cassete e dividindo espaço posteriormente com o surgimento dos arquivos digitais. Com a popularização do MP3, dos downloads e principalmente do streaming, o formato perdeu relevância comercial.

A retomada recente da mídia física começou principalmente pelo vinil. No Brasil, as vendas físicas cresceram 31,5% em 2024, enquanto o vinil respondeu por 76,7% do faturamento desse segmento. Em 2025, as vendas físicas continuaram crescendo, com alta de 25,6%, embora ainda representassem menos de 1% das receitas totais do mercado fonográfico brasileiro.

O CD agora apresenta sinais de uma recuperação própria. Nos Estados Unidos, as vendas cresceram 16% no primeiro semestre de 2026, segundo a Luminate. O K-pop aparece como um dos principais motores dessa alta, especialmente pela transformação dos álbuns em produtos colecionáveis com photobooks, cartões, embalagens especiais e diferentes versões.

No Brasil, entretanto, a expansão encontra limitações. Poucas empresas produzem CDs em escala relevante, muitos lançamentos chegam apenas por importação e a oferta de aparelhos novos para reprodução também é pequena. Ao mesmo tempo, lojas especializadas relatam a chegada de consumidores mais jovens e o retorno de antigos colecionadores.

O futuro do CD, portanto, pode não estar em voltar a ocupar o lugar que teve antes do streaming. A tendência que começa a aparecer é outra: o compacto pode sobreviver como objeto de coleção, alternativa mais acessível ao vinil e forma de posse física da música em uma época na qual quase todo o consumo acontece pela internet.

AS MAIS LIDAS DO NC NEWS

Mendonça será relator de ação de Renan Santos contra reajuste do Bolsa Família; entenda o que está em jogo

Vorcaro procurou Gilmar Mendes por causa que poderia chegar a R$ 145 bilhões no STF

Datafolha revela onde Lula e Flávio Bolsonaro concentram força; veja os recortes por idade, renda, religião e região

Carregar Comentários