A semaglutida, substância presente em medicamentos usados no tratamento da obesidade e do diabetes, pode ter efeitos que vão além da perda de peso. Um estudo publicado nesta semana na revista científica Nature encontrou sinais de que o medicamento pode retardar processos associados ao envelhecimento.
Pesquisadores da Universidade da Califórnia em Berkeley trataram camundongas idosas com semaglutida e observaram que os animais que receberam a substância tiveram uma sobrevida mediana de 834 dias, contra 742 dias entre os que não receberam o medicamento. A diferença representa cerca de 12% a mais de vida.
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Entenda o que aconteceu
O estudo chamou atenção porque os efeitos observados não ficaram restritos à expectativa de vida dos animais.
Durante a pesquisa, os cientistas também avaliaram diferentes aspectos relacionados ao envelhecimento, incluindo memória, força muscular, coordenação motora e alterações moleculares nas células.
Os resultados indicaram que as camundongas tratadas com semaglutida apresentaram menos sinais de deterioração associados à idade em diversas áreas analisadas.
Isso não significa, porém, que a semaglutida possa ser considerada atualmente um tratamento contra o envelhecimento em pessoas. O resultado ainda vem de um estudo pré-clínico realizado em animais e precisa ser confirmado em pesquisas com seres humanos.
Como foi feito o estudo
Os pesquisadores utilizaram camundongas fêmeas com 20 meses de idade, consideradas idosas para esses animais.
Um grupo recebeu injeções diárias de semaglutida, enquanto outro recebeu apenas uma solução sem o medicamento, utilizada como grupo de comparação.
Ao todo, 79 animais participaram da análise de sobrevida.
As camundongas que receberam semaglutida tiveram uma sobrevida mediana de 834 dias, enquanto o grupo de controle apresentou mediana de 742 dias.
Outros grupos de animais foram avaliados separadamente para investigar com mais detalhes o que acontecia no organismo durante o tratamento.
Os cientistas analisaram desempenho físico e cognitivo e também processos biológicos relacionados ao envelhecimento celular.
O que mudou no organismo dos animais
Os pesquisadores encontraram sinais de redução de alguns processos associados ao envelhecimento.
Entre eles estavam menos inflamação nos tecidos, menor presença de células senescentes e menos indícios de danos ao DNA.
As células senescentes são células que deixam de se dividir normalmente e podem liberar substâncias capazes de afetar os tecidos ao redor.
O tratamento também pareceu favorecer o funcionamento das mitocôndrias, estruturas responsáveis pela produção de energia dentro das células.
Outro resultado observado foi o aumento da formação de novos neurônios no hipocampo, região do cérebro relacionada à memória.
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Semaglutida aumentou a expectativa de vida?
Nos animais analisados, sim.
As camundongas tratadas tiveram uma sobrevida mediana aproximadamente 12% maior do que aquelas que não receberam a substância.
Além disso, os pesquisadores observaram alterações em genes relacionados à longevidade, incluindo aumento de moléculas conhecidas como sirtuínas, que participam da regulação de processos celulares associados ao envelhecimento.
Mas é importante separar dois pontos: o estudo mostra uma associação entre o tratamento e uma série de efeitos favoráveis nos animais, mas ainda não prova que a semaglutida aumente a expectativa de vida humana.
O resultado pode se repetir em humanos?
Essa é justamente uma das principais perguntas que permanecem sem resposta.
Animais de laboratório podem apresentar mecanismos biológicos semelhantes aos humanos, mas isso não significa que um efeito observado em camundongos necessariamente aconteça da mesma forma em pessoas.
Para saber se a semaglutida realmente interfere no envelhecimento humano, serão necessários estudos clínicos, com acompanhamento de pessoas por períodos adequados e avaliação de segurança, eficácia e possíveis efeitos adversos.
Portanto, o estudo representa uma pista científica sobre os possíveis efeitos da substância, e não uma recomendação para utilizar semaglutida com o objetivo de viver mais.
Por que a descoberta chama atenção
A semaglutida já ganhou destaque mundial principalmente pelo seu uso no controle do diabetes tipo 2 e da obesidade. A possibilidade de que a substância também influencie mecanismos relacionados ao envelhecimento amplia o interesse científico sobre seus efeitos no organismo.
O envelhecimento envolve uma série de processos simultâneos, como inflamação, alterações metabólicas, danos celulares e mudanças na capacidade de regeneração dos tecidos.
Por isso, entender como medicamentos já conhecidos interferem nesses mecanismos pode abrir novas linhas de pesquisa sobre longevidade e envelhecimento saudável.
Ainda assim, qualquer aplicação desse resultado em seres humanos depende de novas evidências.
Entenda o contexto
O estudo publicado na Nature não significa que a semaglutida seja uma “pílula da juventude”.
O que a pesquisa mostrou foi que camundongas idosas tratadas com a substância apresentaram maior sobrevida e menos sinais de deterioração relacionados à idade.
A diferença observada foi de aproximadamente 12% na sobrevida mediana, além de alterações em processos celulares ligados ao envelhecimento.
A próxima etapa é descobrir se esses efeitos também podem ocorrer em humanos e, principalmente, se os benefícios superam os riscos de um uso prolongado.
Até que existam estudos clínicos que comprovem isso, a semaglutida continua sendo um medicamento utilizado para indicações específicas, e não um tratamento comprovado para retardar o envelhecimento em pessoas.
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